Paradoxo da criatividade
O início de um universo
Há um paradoxo que nunca consegui explicar: precisamente quando a vida parece mais pesada surgem sempre ideias que acabam por mudar tudo.

Os últimos meses foram difíceis e nem vou romantizá-los. Houve momentos em que senti que a criatividade me tinha escapado por completo. E, para alguém que sempre encontrou nela uma forma de existir, isso assusta. Muito.
No meio desse vazio comecei a pensar numa coisa estranha: e se pudesse viver tudo aquilo que estava a sentir... noutro lugar? Não para fugir da realidade. Mas para a compreender de outra forma.
Foi assim que comecei a escrever. Uma Ana que não é Ana. Um mundo que é este mundo, mas não é. Problemas que são meus, mas que pertencem a outra pessoa. Uma realidade paralela onde podia olhar para as mesmas questões através de uma linguagem diferente, quase como um quebra-cabeças contado sob a forma de fantasia.
Sem dar por isso, estava a construir muito mais do que uma história. Estava a construir um lugar: o Compêndio de Teias. Um universo que cresceu em silêncio ao longo dos últimos meses. O Compêndio de Teias não nasceu porque queria escrever um livro ou criar um universo fantástico. Nasceu porque precisava de voltar a criar. Entra então o paradoxo da criatividade, nos piores momentos surgem as melhores ideias, ou pelo menos as que nos salvam.
Cada página tornou-se um espaço onde a escrita, a ilustração, os objetos, os mapas e todas as outras ideias que iam surgindo podiam coexistir sem precisarem de uma justificação.

Pela primeira vez em muito tempo, deixei de sentir que tinha de criar para produzir alguma coisa. Voltei simplesmente a criar.
Hoje percebo que o Compêndio de Teias nunca foi uma fuga da realidade, foi uma forma de regressar a ela.
É isso que a criatividade faz quando lhe damos espaço. Não resolve tudo, é verdade. Mas, às vezes, ilumina o caminho suficiente para conseguirmos dar o passo seguinte.
Este é o primeiro registo de um arquivo em constante construção. Algumas respostas já existem, outras ainda estão por descobrir.

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